terça-feira, 8 de março de 2016

Fora de si


"Caro é transformar-se em um arremedo de si próprio
A ponto de não se reconhecer mais"
(Pitty Leone e Martin Mendezz)






A sensação de estar perdido entre o medo e a desilusão talvez seja pior do que abraçar uma certeza dura e triste, além de perder-me, perdi-me. Além de não saber pra onde ir, não sei quem está indo, simplesmente porque não me reconheço mais.

Sim, isso é possível, não é só papo de maluco. De repente não me vejo mais em mim, não reconheço minhas atitudes, não controlo minhas reações... como um ser desgovernado ou vazio eu sigo o fluxo que nem imagino aonde vai dar. É como uma experiência dessas em que o espírito sai do corpo, só que está demorando para voltar...

As vezes a gente acredita tanto numa coisa ou em alguém, coloca um plano ou uma pessoa num lugar tão alto que quando desmorona não damos conta de conviver com os retalhos. Remendar pode até ser viável, mas deixa marcas, sempre há de se ver o remendo e sempre vai se lembrar do porque que se rompeu. Resta saber se é possível conviver com essa sensação de que a qualquer momento vai rasgar tudo outra vez. Guimarães Rosa dizia que “viver é um rasgar-se e remendar-se”, a gente pode ser que suporte os próprios remendos, mas os de uma relação esgarçada pode não ser tão fácil.

Juntar os próprios cacos é questão de sobrevivência, cair faz parte da caminhada, levantar-se é obrigação para quem quer continuar caminhando. Mas tem coisas que quando quebram não tem conserto, se colar vai ficar marcado e a memória é traiçoeira, às vezes falha, outras vezes insiste em lembrar.

Qual preço que se paga por se perder e persistir seguindo? Vale à pena se anular? Resolve? Respostas óbvias para perguntas idiotas, claro que se a gente não ta mais inteiro com alguém não vale à pena, não resolve e vai sair caro, pode esperar.

Pode-se passar por cima de tudo, mas se ignorar é o último grau de desespero, e pra quê? Por quê? Por quem? Quem nessa vida merece alguém assim, ausente de si mesmo.


Sempre fui do tipo que acreditava que na vida, pra tudo tem jeito, mas não tem, ou eu já não tenho mais tanta certeza disso.