“A criança que fui chora na estrada, deixei-a ali quando vim ser quem sou. Mas hoje, vendo que o que sou é nada, quero ir buscar quem fui, onde ficou.”
Fernando Pessoa
Em
busca do “eu” perdido...
Há
poucos meses resolvi mudar, mas não fui adiante, não no sentido literal, fiz o
caminho inverso, regressei, voltei para cidade de origem, voltei com algumas
expectativas, alguns objetivos ainda nebulosos, mas que estavam inconscientemente
claros.
Essa
mudança se valeu da máxima “dar um passo atrás para dar dois à frente”. Ao longo da vida a gente vai acumulando coisas
e sentimentos. Alguns são mais objetivos e práticos, resolvendo as pendências tão
logo seja possível, outros postergam, uma bobagem, pois algumas pendências
ficam lá, só esperando o momento de ressuscitar.
Faço
parte, na maioria das vezes, dos que postergam. Uma hora é preciso encarar de
frente o que foi negligenciado, seja por vontade própria ou por preguiça.
Muita
gente só enxerga retrocesso na volta, mas o retorno às origens, pelo menos no
meu caso, tem mais relação ao resgate da identidade.
Tenho
a impressão de que me perdi em alguns pontos do caminho, me perdi por não saber
aonde ir e por me afastar da minha identidade, fui me tornando um arremedo de
histórias inacabadas, algumas muito distantes do que fui e do que penso que
sou.
Por
mais dinâmica que seja a vida as pessoas tem uma essência, por mais asas
existem raízes, por mais viagens existe um ponto de partida... As vezes é
preciso voltar a um ponto mais próximo do início para recomeçar e ir além.
Não
há arrependimento, as escolhas são feitas da forma que são diante das
alternativas que estão disponíveis, num dado momento as alternativas podem ter
sido escassas. E como nada é definitivo, novas escolhas sempre podem ser
feitas, com um pouco ou muita boa vontade.
Nesse
processo de retroceder para ir além há muito que se resgatar. A sorte é poder
fazer o resgate a tempo de seguir adiante, um pouco mais leve, um pouco mais
eu, um pouco mais aberta e menos defensiva.
Se
achar não é fácil, se perder é num piscar de olhos, enxergar a perda e fazer o
resgate é libertador.
Talvez
não seja pra ficar, pode ser que seja só para seguir adiante, tudo depende do
tempo que se tem...
O
momento atual é de um dia de cada vez e esvaziando a mente do excesso tóxico
acumulado.