segunda-feira, 11 de abril de 2016

O medo de amar e o amor pelo medo

O que te faz se apaixonar por alguém? Esses dias li uma frase da Martha Medeiros, escritora que gosto muito aliás, e que me levou a esse questionamento. “Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca”. Pelo tormento?

Ninguém é obrigado a corresponder às nossas expectativas, o amor da nossa vida, aquele que mora lá nos no mundo dos sonhos, não necessariamente existe. Mas tem os amores reais, esses nos despertam os mais diversos sentimentos e sensações e até o tormento que provocam alimenta esse amor.

Ele não presta atenção às suas minúcias, como você se incomoda com isso e com a falta de romantismo e com a mania de testar sua paciência e com o medo de vê-lo partir, nada nunca é, tudo está, de firme e forte só o sentimento, o resto está sempre por um triz.

A insegurança, o medinho de tudo acabar, isso sim é tormento, mas é melhor assim do que não tê-lo. Amar é construir e reconstruir a relação todos os dias. Nós somos “o outro” do outro e também não correspondemos 100% às expectativas, as pessoas são o que são e a gente ama pelo conjunto de qualidades e imperfeições.

Enquanto houver a vontade de construir e reconstruir tudo vai bem, até os tormentos são bem vindos. O amor dura o tempo da vontade de fazê-lo dar certo, amor não sobrevive à indiferença, se não faz mais falta, pode procurar que o amor se foi.


Crônica do Amor - Martha Medeiros


Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim. 

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Ter com quem nos mata, lealdade


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões

Ah o amor!!! Parecia a solução de tudo, um velho coração cansado de apanhar se vê diante da possibilidade de bater feliz e sorridente, mas, sempre tem um “mas” para trazê-la de volta à realidade e esfregar na cara que o seu coração foi feito para apanhar, não para bater, muito menos feliz e sorridente.

Ela ignorou todos os sinais de que não daria certo, tudo era possível de ser mudado, suportado, quanta pretensão achar que poderia mudar o cara só com amor, dedicação, lealdade... As pessoas não estão preocupadas com isso, parece cada vez mais difícil enxergar o outro, a tal síndrome do umbigo solar é uma praga que assola a maioria da população, consiste em achar que o mundo gira ao redor do próprio umbigo, só que não.

Ela tem lá seus defeitos, perfeição é chato, vamos combinar que um defeitinho as vezes enfeita a pessoa, tudo bem que ela tem defeitinhos e defeitões, mas quem não os tem? O importante é que apesar da imperfeição ela se dispunha a construir um futuro bom, mas infelizmente escolheu a pessoa errada, as vezes acontece.

O mal dessa moça foi ter se permitido amar, mudar de vida, se entregar. Coitada, pulou numa piscina vazia, o tombo foi feio, as feridas estão abertas e o tal amor ainda está lá, pra nada, só para lembrá-la do quanto é fraca e autodestrutiva.

O amor dói, uma dorzinha incomoda, contínua... dói ver o ser amado não amar de volta ou não enxergar o quanto é amado, ou pior, se aproveitar da segurança de ser amado para encobrir seus desvios.

“Ter com quem nos mata, lealdade”, isso vai minando o sentimento, o amor não deixa de ser amor, mas pode deixar de ser a razão para estar junto. A dor pesa no peito, apaga o brilho, afasta, esfria, quando se vê, o amor já não sustenta sozinho a relação.

Talvez todo engano tenha vindo das expectativas que a moça criou, mas ninguém vive de amor inventado, isso é coisa de poeta. Amor bom é o recíproco, verdadeiro, não é o falado nem escrito, mas o demonstrado, amor é atitude. Se as atitudes não mudam não é amor, é comodismo ou coisa que o valha.

Moça, moça, não desperdice seu amor, sua energia e sua dor com quem não investe nem tempo, nem o mínimo de carinho em você, não é carinho de afago, mas o de tocar seu mundo com delicadeza.


Colega, foco na lealdade, no amor próprio, amores inventados uma hora se desfazem como nuvem, até porque nunca existiram.

terça-feira, 8 de março de 2016

Fora de si


"Caro é transformar-se em um arremedo de si próprio
A ponto de não se reconhecer mais"
(Pitty Leone e Martin Mendezz)






A sensação de estar perdido entre o medo e a desilusão talvez seja pior do que abraçar uma certeza dura e triste, além de perder-me, perdi-me. Além de não saber pra onde ir, não sei quem está indo, simplesmente porque não me reconheço mais.

Sim, isso é possível, não é só papo de maluco. De repente não me vejo mais em mim, não reconheço minhas atitudes, não controlo minhas reações... como um ser desgovernado ou vazio eu sigo o fluxo que nem imagino aonde vai dar. É como uma experiência dessas em que o espírito sai do corpo, só que está demorando para voltar...

As vezes a gente acredita tanto numa coisa ou em alguém, coloca um plano ou uma pessoa num lugar tão alto que quando desmorona não damos conta de conviver com os retalhos. Remendar pode até ser viável, mas deixa marcas, sempre há de se ver o remendo e sempre vai se lembrar do porque que se rompeu. Resta saber se é possível conviver com essa sensação de que a qualquer momento vai rasgar tudo outra vez. Guimarães Rosa dizia que “viver é um rasgar-se e remendar-se”, a gente pode ser que suporte os próprios remendos, mas os de uma relação esgarçada pode não ser tão fácil.

Juntar os próprios cacos é questão de sobrevivência, cair faz parte da caminhada, levantar-se é obrigação para quem quer continuar caminhando. Mas tem coisas que quando quebram não tem conserto, se colar vai ficar marcado e a memória é traiçoeira, às vezes falha, outras vezes insiste em lembrar.

Qual preço que se paga por se perder e persistir seguindo? Vale à pena se anular? Resolve? Respostas óbvias para perguntas idiotas, claro que se a gente não ta mais inteiro com alguém não vale à pena, não resolve e vai sair caro, pode esperar.

Pode-se passar por cima de tudo, mas se ignorar é o último grau de desespero, e pra quê? Por quê? Por quem? Quem nessa vida merece alguém assim, ausente de si mesmo.


Sempre fui do tipo que acreditava que na vida, pra tudo tem jeito, mas não tem, ou eu já não tenho mais tanta certeza disso. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Sobre amor, confiança e a gente


Seria possível se relacionar com amor e sem confiança? Acho difícil. O amor é MUITO importante, mas a falta de confiança mina qualquer relacionamento, sem ela não há paz e sem paz o que sobra é a guerra, de nervos, de egos...

Estar na companhia do ser amado, rir, se divertir, planejar...  e tudo mais que se espera de uma relação amorosa, é ótimo. Mas como ter humor com a mente ocupada pela desconfiança? Planos em comum exigem parceria, companheirismo, quem fecha parceria com quem não confia?

Entrar no jogo sem saber com quem está jogando é, no mínimo, muito arriscado, se não for estupidez.

Pode-se viver anos com alguém sem o conhecer  de verdade, alíás, só se conhece o que o outro permite que seja conhecido. Somos muito mais do que os outros vêem, e com cada um temos um limite de exposição. Mas ainda assim é importante conhecer o outro, mesmo que dentro dos seus limites.

Em um relacionamento amoroso, ao menos na minha opinião, há de ter uma entrega, o amor tem o dom de desnudar a alma. A casca externa se quebra, perde-se um pouco da sensação de proteção, pronto, estamos vulneráveis.

Estar desnudo de alma para o ser amado não deveria ser razão de preocupação, onde há amor, há cuidado, proteção... Opa! Haveria, se as pessoas conseguissem ser um pouco menos egoístas. O interesse próprio, em boa parte dos casos acaba superando os interesses comuns. Algumas pessoas agem puramente pela satisfação pessoal sem se preocupar com as expectativas criadas.

Basta um motivo de desconfiança para derrubar seu castelo de cartas. A desconfiança rouba a paz, a alegria, a vontade de planejar... quebra a parceria.

O que posso dizer do amor que tive é que ele se desfez na bruma da desconfiança. Ficou embaçado, distante, doente... pode até estar guardado em algum céu dos amores que não deram certo, mas já não se faz presente para segurar a vontade de dividir, de estar junto, de partilhar e compartilhar e viver as dores e delícias de uma vida a dois.

A expectativa virou medo, os planos viraram história, a companhia não faz mais sentido. As vezes o amor morre quase ao nascer, mal consegue dar os primeiros passos, e, ainda sem muita estrutura, não agüenta o baque da decepção.

O amor não exige nada, nasce não sei onde, nem porquê, mas se relacionar depende da interação, da troca, do convívio. Amor é muito coisa de amizade, companheirismo, respeito e confiança. Não é sobre fidelidade, é sobre lealdade. Acho digna uma relação onde existe a disponibilidade de ser leal a si e ao outro.


Não, não é sobre o amor, é sobre a gente e o que a gente achou que poderia ser...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O quanto ela é especial?


É carinhoso, gentil, tem pegada, isso tudo entre quatro paredes. Sair junto? Nem pensar. Andar de mãos dadas, meu Deus, que sacrifício. Diz que com ela é diferente, mas não abre mão dos contatos de primeiro grau com outras pessoas, ainda diz que é só sexo, machista de uma figa.

Fala que gosta muito dela, que é especial, mas deixa claro que não quer envolvimento, imagina estar “preso” a uma relação ou a alguém? Não, isso está fora de cogitação.

A ideia de prender-se é subjetiva, estar com alguém de verdade, por inteiro, enquanto poderia estar com qualquer outra pessoa é liberdade para alguns. Para os maduros que sabem a importância que tem poder escolher, que alguém especial não é para deixar escapar, não aparece todos os dias.

Depois de encontros casuais divertidíssimos ele volta para casa, sozinho, ou se despede da companhia sem um chamego, nem café da manhã, um tchau frio, sem compromisso. Aliás, essa, em geral, é a vida de quem escolhe companhias ao invés de companheira.

Isso é coisa de gente egoísta, que pensa no seu prazer e dane-se a tal pessoa especial, mas a mantém por perto, presa a nada. A tal, que poderia ser a companheira, fica reduzida a uma boa companhia, do tipo que merece uma despedida menos fria e quem sabe um café da manhã.

Um dia essa “candidata” a companheira vai se cansar e querer um upgrade que não está nos planos dele, aí, não há carência, desejo, ou o que quer que seja que a segure ao lado dele. Um dia ela vai querer alguém inteiro e não uma metade que se encaixa em tantas vidas sem fazer parte de nenhuma delas.

Talvez seja libertador para ambos, mas sempre há o risco de querer valorizar o que perdeu e não enxergou enquanto poderia ter. Nesse caso terá que contar com a sorte dela repensar a decisão, o que pode ser difícil, afinal, como confiar em um sentimento assim?

O que a intriga é que ele já se entregou a outras pessoas, por que agora fica tão difícil ficar com alguém se diz que é especial? Quer saber, ela não é especial, é mais uma, mas cometeu o erro crasso de se envolver um pouco mais, querer bem mais do que deveria, ela errou, mas ele foi permissivo. Ser cuidado por alguém é tão bom que vicia, no fim, o cuidado dela é que é especial, ela não.

Ele não a quer, ele quer a pseudo-segurança que ela representa. Assim mantém o ciclo perfeito, liberdade quando se quer liberdade e carinho quando só sexo não preenche.

A pessoa sabe quando encontra alguém especial de verdade, a não ser que seja muito desatenta, e se fosse esse o caso, não haveria a necessidade das outras para comprovar a liberdade. Alguém especial preenche a vida.


Meu caro, ela vai se cansar! Porque até carência tem limite.

Entre boiar e mergulhar


Por que queremos certas pessoas em nossas vidas? Como deixamos que algumas pessoas entrem em nosso cotidiano, nossa mente e, por que não, em nosso coração?Qual a razão das vidas se cruzarem? Qual o limite de acesso dar às pessoas?

Tenho mais dúvidas do que respostas, aliás, para certas questões, nem sei se há respostas. O fato é que, parando para observar quem faz parte da minha vida, me questiono o porquê de certas pessoas cruzarem meu caminho.

 A vida tem lá seu ritmo, cada um confere à sua seu compasso, tudo é tão mecânico que certas coisas acontecem sem nos darmos conta, quando se vê já aconteceu. O problema é quando somos surpreendidos com a percepção dos acontecimentos. E aí, como cheguei a esse ponto? O caminho já não lembro mais, mas cheguei e não sei se é onde gostaria de ficar.

 Há muito tempo não vivo uma daquelas paixões avassaladoras, nem amores calmos, me acostumei a ficar na superfície, tentando me manter a salvo de certas decepções. Às vezes dá vontade mergulhar, mas vem o medo do mergulho ser em águas rasas, isso pode machucar, até matar. É uma eterna luta entre viver intensamente e se proteger da vida, não dá para fazer as duas coisas.  

 Por mais longa que seja a fase da superfície, uma hora vai ser aberta uma brecha para afundar um pouquinho mais, se essa hora coincidir com um momento de coragem, você se joga... Os riscos? Que riscos? Quem se joga não se apega aos riscos. Será que não? Tem os do tipo riscos calculados.  

 O problema é que a fase protetiva foi tão intensa que pode ser um aparente mergulho, nada que comprometa demais a segurança, tipo um mergulho próximo à margem, qualquer coisa retorna-se à superfície. Talvez seja pior que as fraturas de um mergulho mal executado, nem 8, nem 80, um meio de não sei o quê.

 Intensa em diversos sentidos e arredia em diversos outros. Uma contradição ambulante que não sabe bem o que quer, quem quer e aonde quer chegar, uma constatação de que está só seguindo o fluxo, sem ter o controle da direção. Para quem se apega a um pouco de segurança isso pode parecer inseguro, mas soltar as rédeas nem sempre é sinal de coragem, as vezes é um ato covarde de não assumir o que quer e dispensar o que não satisfaz. Vai seguindo... depois joga a culpa no outro, na vida, menos na falta de força para defender os desejos.

 Como diria Guimarães Rosa, “o que a vida quer da gente é coragem”.